hoje seria um poema

Eu queria fazer um poema hoje.  Não um poema qualquer, desses pegos no ar, sem intenção.  O poema que eu faria hoje seria para você.  Ele seria uma mensagem com inteligência própria, o que quer dizer que saberia encontrar todos os caminhos, saberia escalar montanhas e costear precipícios e até navegar oceanos para chegar dentro de você e se entregar.  Entraria pela sua boca, talvez, e então aproveitaria para sentir o cheiro da sua saliva e aprisionaria por um momento a sua língua estremecida.  Talvez pelos olhos.  Se entrasse pelos olhos, meu poema se desnortearia um pouco, iluminado no centro de um palco, mas logo saberia mostrar-se ao brilho deles e dançaria, só para você.  Talvez antes de tudo apenas se aninhasse na palma da sua mão levemente fechada, e ficasse se aquecendo ali durante um tempo, enquanto você dorme.  Pode ser também que ele preferisse entrar pelo seu desejo, embora soubesse que teria que despertá-lo, o desejo, e para isso inventaria carícias e escorreria pelo seu peito, se enrolaria no seu mamilo, subiria roçando as unhas de leve até a nuca só para depois mergulhar e chegar ao seu sexo de improviso, descarado e libertino, ouvindo as palavras roucas que você estaria dizendo e sentindo sua pele desperta e suas mãos querendo e possuindo.  Com a força que elas tem quando querem e possuem.  Poderia entrar como um suspiro.  Nesse caso especial meu poema entraria junto com o ar que você respira, e sentiria, infantilmente, que precisa existir porque é necessário para a sua vida.  E se escolhesse esperar o seu convite?  Teria que criar novas artes, dia após dia.  Treinaria a paciência de sentar-se ao seu lado nas horas perdidas.  Mais, seria a cadeira para você sentar-se, perido.  Também acompanharia qualquer bebedeira ou desatino.  Usaria disfarces domésticos para a rotina, como o de um cão que recebe o dono louco de felicidade, por exemplo.  Levaria você para um banho de mar durante a noite quando você estivesse inspirado, na hora que se pode ver a lua saindo dele, a cabeleira pingando água.  Se fosse preciso – e com certeza seria preciso – diria em seu ouvido todas as palavras de amor e beberia da sua boca, finalmente, o sim.  Então, é claro que meu poema já estaria dentro de você, inteiro e entregue.  E eu estaria, enfim, feliz.

Dora Castellar